Paredes Fora de Portas (I): A cabeça em Aveiro, o corpo no Porto: a história macabra de um «mártir» sem descanso
Convém contextualizar estas primeiras informações biográficas. D. Miguel havia firmado um compromisso com o seu irmão Pedro IV, imperador do Brasil, pelo qual aquele assumiria a regência provisória do reino até que D. Maria da Glória, herdeira legítima da coroa, atingisse a maioridade. Porém, D. Miguel quebrara o pacto com o irmão e assumira-se Rei Absoluto, dando corpo institucional àqueles que advogavam a vigência do poder conservador e centrado na pessoa do Rei – o absolutismo. Durante esse período de «usurpação», os defensores de D. Pedro e adeptos de uma monarquia de tipo liberal, sobretudo os rebelados de Maio de 1828, foram perseguidos, acusados e sentenciados à pena capital por tribunais especiais (alçadas).
O advogado e juiz paredense Manuel Luís Nogueira teve, de facto, papel activo na revolta liberal de Aveiro. Acompanhou o movimento que, sob ordens da Junta Provisória do Porto, executou o arrombamento de um cofre de dinheiro da barra, depositado no Convento do Carmo daquela cidade. O levante acabou por fracassar e todos os seus membros foram detidos e julgados. Levado em Agosto de 1828 para a cadeia da Relação do Porto, o jurista de Baltar conheceria a sentença no ano seguinte. Foi condenado à morte por enforcamento em patíbulo público.
Na ilustração sugestiva e na fotografia que se lhe segue, podemos ver o adro e a fachada da igreja do antigo convento do Carmo. Tinha sido este, como dissemos, o lugar do crime – arrombamento do cofre – cometido por Manuel Luís Nogueira e demais rebeldes. Espetada num cepo, a cabeça ali ficou durante mais do que os três dias determinados pelo veredicto, sem ninguém que, nesse entretanto, pusesse termo àquele cenário tétrico. Lá coube, por fim, aos irmãos da Misericórdia de Aveiro, por sua iniciativa e após autorização superior, a tarefa piedosa de recolher a cabeça do infeliz. Durante a noite, o crânio foi levado e sepultado no átrio da igreja da Irmandade.
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| A cabeça de Manuel Luís Nogueira foi colocada num cepo defronte do Convento do Carmo, em Aveiro, local onde tinha sido cometido o crime de que fora acusado |
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| Adro fronteiriço do Convento do Carmo na actualidade |
No entanto, nem aí as cabeças encontraram descanso. Vinte e oito anos depois, em 1864, realizou-se para aquele cemitério a trasladação dos restos mortais de José Estêvão de Magalhães, uma eminente figura aveirense. A confusão e o grande concurso de gente àquele acto, terão estado na origem da derrocada do mausoléu. O monumento caiu por terra, e as cinco caveiras acabaram espalhadas pelo chão.
Na sequência do sucedido, a Câmara Municipal de Aveiro mandou construir um novo e altivo ossário, que ainda hoje lá se encontra e que podemos admirar nas fotografias anexas. Foi edificado no mesmo local do anterior. As cabeças puderam encontrar aqui, por fim, o seu último e tranquilo repouso, apesar de continuarem muito longe do resto do corpo ao qual cada uma pertencia.
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| Monumento no Cemitério Central de Aveiro, onde jazem as cabeças de seis dos supliciados de 1829 |
Ora, no mesmo dia em que as caveiras eram exumadas para rumarem ao cemitério de Aveiro (7 de Maio de 1836), a pouco mais de 70 quilómetros dali, na cidade do Porto, os corpos dos juízes eram também retirados do Adro dos Enforcados para serem sepultados no átrio interior da Santa Casa da Misericórdia, na Rua das Flores. Os documentos referem que identificar os corpos em questão, volvidos sete anos desde o seu enterramento, não foi tarefa difícil, principalmente por duas razões: primeiro, porque o coveiro ainda era o mesmo que lhes havia dado sepultura e recordava-se perfeitamente do local; e segundo, porque de entre os vários cadáveres ali sepultados, os corpos dos supliciados eram os únicos… que não tinham cabeça.
Tal como sucedera em Aveiro, também para os corpos no Porto fora construído um mausoléu (financiado por subscrição pública e por eventos de angariação de fundos) no claustro da Misericórdia. Até que este ficasse pronto, porém, colocaram-se os restos mortais e as cabeças de quatro dos sentenciados (mas não a de Manuel Luís, que continuou em Aveiro) numa urna provisória, à esquerda da porta lateral da igreja. Para o novo mausoléu só seriam trasladados no ano seguinte (1837), no dia de Todos-os-Santos, e tudo levava a crer que, finalmente, os esqueletos das vítimas do miguelismo, entre os quais o corpo sem cabeça do baltarense Manuel Luís Nogueira, ficassem em repouso eterno e sob memória sepulcral perpétua. Mas não seria assim.
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| Em 1836, os corpos dos «mártires liberais» foram trasladados para o átrio da Misericórdia do Porto. Ficaram provisoriamente numa urna «à esquerda da porta lateral» (foto do local na actualidade). |
Em Fevereiro de 1878, era de facto feita a exumação dos mártires, mas como o mausoléu não se achasse ainda pronto e recolocado no novo local, os ossos seriam levados para a Capela de Santa Isabel, sita também no átrio da Misericórdia. Três meses depois, o jazigo ficou pronto, e foi então agendada, para 17 de Junho, a solene trasladação para o Prado do Repouso.
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| Capela de Santa Isabel no átrio da Misericórdia do Porto, para onde foram transferidas as ossadas dos liberais antes de rumarem ao Cemitério do Prado do Repouso. |
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| Monumento (Jazigo 17) no Talhão da Misericórdia do Cemitério do Prado do Repouso, no Porto. Aqui repousa, entre outros, o corpo (sem cabeça) de Manuel Luís Nogueira. |
O juiz Nogueira foi consagrado na toponímia das cidades de Aveiro e de Paredes (já a freguesia de Baltar, continua a ignorar um dos seus filhos ilustres), e de forma implícita, sob a designação comum de «Mártires da Liberdade» em vários pontos do país. O seu nome também figura no pedestal da estátua equestre de D. Pedro, no local, portanto, onde como vimos padeceu por enforcamento.
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| O nome de Manuel Luís Nogueira figura no pedestal da estátua equestre de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade, cidade do Porto. |
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| A toponímia da cidade de Paredes também perpetua o nome do ilustre liberal (Foto: João Vieira) |
Ora, atendendo aos factos expostos, é possível que alguém coloque a seguinte e premente interrogação: quem queira hoje visitar e homenagear esta eminente personalidade paredense, tem de ir exactamente a que local? Arriscamos uma resposta: se quiser visitar o corpo onde palpitou um vibrante coração de liberal, tem de rumar à cidade do Porto. Por outro lado, se quiser visitar a cabeça onde frutificaram as ideias e medrou o pensamento de um defensor da liberdade, tem de se deslocar até Aveiro. Numa escolha entre o coração e a cabeça, ou entre a razão e o sentimento, talvez o melhor seja considerar sempre as duas partes. Mesmo que estejam a quilómetros de distância.
O percurso da cabeça de Manuel Luís Nogueira:
1. Patíbulo da Praça Nova (Porto) – 7 de Maio de 1829
2. Adro do Convento do Carmo (Aveiro) – 8 de Maio de 1829
3. Pátio da Misericórdia (Aveiro) – 16 de Maio de 1829
4. Primeiro Mausoléu no Cemitério Central de Aveiro – 8 de Maio de 1836
5. Segundo Mausoléu no Cemitério Central de Aveiro – desde 1865
O percurso do corpo de Manuel Luís Nogueira:
1. Patíbulo da Praça Nova (Porto) – 7 de Maio de 1829
2. Adro dos Enforcados (Porto) – 8 de Maio de 1829
3. Sepultura Provisória no Átrio da Misericórdia (Porto) – 7 de Maio de 1836
4. Mausoléu no Átrio da Misericórdia (Porto) – 1 de Novembro de 1837
5. Sepultura Provisória na Capela de Stª Isabel (Átrio da Misericórdia, Porto) – 6 de Fevereiro de 1878
6. Mausoléu no Cemitério do Prado do Repouso (Porto) – desde 18 de Junho de 1878
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BIBLIOGRAFIA:
SOUSA, A. Gomes de. Manuel Luís Nogueira e outros Mártires da Pátria e da Liberdade. Rebordosa: A CELER, 2016.












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