Paredes e a Primeira República - 2.ª Edição
Nota Introdutória à 2.ª Edição
O ano de 2020 ficou marcado por um dos mais impactantes eventos históricos do último século: a pandemia de Covid-19. Aliás, quis o destino que acontecesse na precisa altura em que, no âmbito deste mesmo trabalho, também abordássemos a dimensão e consequências dessa outra grande crise sanitária global, igualmente marcante e funestíssima, surgida no contexto temporal aqui tratado: a pneumónica ou gripe espanhola de 1917. Foi, pois, no dia do 110.º aniversário da Implantação da República que a primeira edição desta obra foi apresentada ao público, embora numa sessão solene muito limitada, num período em que os ajuntamentos eram fortemente regulados, alguns desaconselhados e outros mesmo proibidos. Não houve, também por essa razão, grande divulgação deste livro, ou pelo menos uma divulgação proporcional à relevância de o que nela existe de inédito e de substancial.
Como se constata de forma objectiva, não é este um trabalho que se dedique monotematicamente à chamada «história política» e seus principais intérpretes ou protagonistas. «Paredes e a Primeira República» é também isso, mas ainda o resultado de uma investigação bastante mais alargada, que mostra, entre outros aspectos: a génese ou formação do associativismo concelhio; o mais completo levantamento histórico da imprensa local alguma vez realizado; a biografia de personalidades totalmente obliteradas da história local; a descrição pormenorizada de eventos históricos até aqui desconhecidos; o panorama social do concelho em vertentes como a situação sanitária, a guerra, a educação ou o ensino; abordagens de relevo à toponímia ou ao património; o tratamento rigoroso e aprofundado de múltiplas incidências a nível administrativo e autárquico, de que a «Questão de Lordelo» se torna exemplo paradigmático; etc. Em suma, um trabalho ecléctico e, até à data, insubstituível para quem procure compreender a realidade histórica e social do século XX no concelho de Paredes.
Chegados a 2026, vemos ser atingido o primeiro centenário da queda desse período a que se convencionou chamar de «Primeira República» . Se quisermos ainda, o centenário do golpe de 28 de Maio e da consequente instauração da Ditadura Militar. E a ocasião poderá proporcionar evocações quer sobre o período que terminou, quer sobre o que se desencadeou a partir desse momento de charneira. Porém, há muito que fora ultrapassada a abordagem à História de forma compartimentada ou hermeticamente isolada. Isto é, sem se levar em linha de conta que cada período é sempre mãe e berço do período seguinte. O debate histórico sério – o de natureza científica, que não se confunde com a pseudo-história, de motivações político-partidárias ou outras – continuará a fazer-se sob vários prismas ou interpretações. De forma natural, algumas conclusões serão convergentes, e outras divergentes, das que aqui se postulam. Porém, num ponto, estamos em crer que todas as partes acabarão por concordar e reconhecer: no que ao período primo-republicano diz respeito, com esta obra, Paredes deixou de estar no triste vácuo historiográfico. Daí a sua inequívoca utilidade. Daí a justificação para a sua existência.
Cremos que o aludido centenário é também, agora, um bom mote para se levar a cabo esta segunda edição. Aproveitámos o ensejo para efectuar um novo olhar e uma revisão atenta ao teor dos textos, de que resultaram algumas correcções de pormenor, mas sem grandes acrescentos ou alterações de fundo. Que este renovado contributo possa continuar a ter toda a utilidade histórica e cultural que desejamos que tenha e que nos empenhámos para que tivesse. De igual modo, que tenha também a melhor compreensão dos leitores para as tão insuperáveis quanto humanas insuficiências ou erros que, apesar da revisão, ainda possam persistir.
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